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Fábulas

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Desabafo de uma professora

O que passo a trancrever é um comentário ao meu post anterior.
Como constatarão, se o lerem, um texto assim não pode ficar escondido no cantinho dos comentários!
E não digo mais nada porque me faltam as palavras...

«É com grande consternação que leio tanto do que hoje se escreve, que ouço tanto do que se diz... e vejo todas as injustiças que estão a atingir limites inaceitáveis...
Perdoa-me o "desabafo"... mas acho que preciso, também, de dizer qualquer coisa...
Tenho acompanhado os meus alunos ao longo do seu percurso escolar com dedicação total.
Nunca falto, a não ser por motivos de força maior. Este ano, porque os MEUS ALUNOS me merecem a máxima consideração e estão num decisivo 12º ano, nunca faltei.
Dei todas as minhas aulas com entusiasmo, porque exerço a profissão de que gosto, aquela que eu escolhi e para a qual me formei (12 anos de escolaridade+ 4 de licenciatura na Universidade do Porto+ 4 de formação pedagógica no CIFOP de Aveiro, com estágio profissional).
Preparei as minhas aulas conscienciosamente, corrigi intermináveis testes, quantas vezes à noite, e em cansativos fins de semana;
leccionei todo o programa, desfiz-me em explicações, certificando-me de que os alunos acompanhavam, que se sentiam preparados e "à vontade"; lutei contra o stress deles e o meu, contra as péssimas condições de salas geladas no inverno e asfixiantes no verão, animei-os quando se sentiam desmoralizados, conversei com eles muito para além do horário que "os outros" dizem que eu tenho...;
participei em reuniões de acompanhamento, de avaliação, de aferição de critérios, de planificações de matérias, mesmo quando "os outros" dizem que nós estamos em férias: nos intermináveis Julho e Setembro, pelo Natal, pela Páscoa...;
também nesses períodos (e sempre, ao longo do ano!) atendi Encarregados de Educação, fiz exames (elaboração e correcção), provas globais, relatórios, matrículas, horários e turmas;
fui/sou professora, psicóloga, conselheira, mãe... mantive-me disponível a tempo inteiro para aquela que é a minha profissão, porque a abracei e as PESSOAS DOS MEUS ALUNOS, jovens a desbravar os caminhos do futuro, merecem, como já referi, a máxima consideração...

Mas estou a ficar cansada das críticas, ofensas e humilhações de que todos os professores estão a ser alvo.
Neste momento, deveria sentir o alívio de missão cumprida, porque as minhas quatro turmas de 12º ano fizeram hoje exame, correu bem e eles ficaram muito felizes - vieram dizer-mo com olhos brilhantes, "porque houve testes que tínhamos feito que visavam exactamente" aquela dimensão da grande e inesquecível Sophia de Mello Breyner, porque o tema de Cesário Verde que lhes foi proposto "tinha sido por nós abordado nas aulas", e os resumos e textos trabalhados "ajudaram-nos a ficar confiantes e a conseguir"...
É claro que tudo isto me deixa uma grande satisfação interior... mas não apaga o ressentimento perante a enorme injustiça e ingratidão que a sociedade está a dirigir a todos OS PROFESSORES, indiscriminadamente... se calhar deveria bastar-me saber que os meus alunos me estão muito gratos - eles exprimiram-me esse agradecimento ainda ontem, porque passei o dia na escola a tirar dúvidas.
Mesmo com um calor asfixiante, contaram comigo (de manhã e de tarde, no único dia em que estaria mais livre esta semana!) para os ajudar a rever a matéria, a relembrar todos aqueles pormenores que às vezes o tempo se encarrega de diluir...
No entanto, por cima da gratidão dos alunos, ecoam as críticas e os sarcasmos que provêm da televisão, de acordo com os quais os professores são uma espécie de monstros egoístas, que pensam apenas em si, atropelando tudo e todos...
Vem um sr Miguel Sousa Tavares, e diz um monte de barbaridades, que revelam uma total ignorância do trabalho desenvolvido por milhares de docentes, por todo o país;
a seguir, um sr Belmiro de Azevedo, não sei a que propósito ou com que autoridade, faz mais umas incríveis "descobertas" - os professores e as escolas "deseducam os alunos"!
Assim, sem mais, e de forma repetida; afirmações dignas... de um processo, se os sindicatos estivessem empenhados em defender realmente os professores que representam.
Mas não.
Os próprios sindicatos, que se têm calado perante tantas situações contra as quais deveriam reagir, vão agora marcar uma greve polémica - que, a meu ver, vai agudizar mais ainda os conflitos, as acusações, as desconfianças.
É assim que as coisas se resolvem?
O Ministério tem que ponderar alguns atropelos graves que está a cometer relativamente aos professores; já agora, posso dizer que o meu vencimento esteve "congelado" durante três anos, por isso, se o défice aumentou, não foi por falta de sacrifícios da minha parte!
E, no meu entender, as atitudes prepotentes não resolvem nada, pois todos sabemos que devemos dialogar civilizadamente, com transparência, pois só assim se consegue algo de construtivo.
Então... qual é o meu dilema, neste momento?
Não concordo, como é óbvio, com as injustiças de que os professores estão a ser alvo, mas também discordo integralmente da forma como os sindicatos estão a guiar o assunto!
Não me sinto sequer capaz de fazer greve, e isso por razões profundamente humanas: tenho visto a angústia com que muitos dos alunos (meus... e não só, enfim!) vêem aproximar-se este período, e não posso imaginar-me a contribuir (ainda que involuntariamente!) para as dúvidas e ansiedades que os assaltam.
Hoje, às 8h30 da manhã, correram para mim duas alunas a chorar - mas mesmo a chorar! - em verdadeiro estado de pânico. Fiz todo o possível para as acalmar, desdramatizando, repetindo que afinal um exame não é o fim do mundo!
E no fim tive a satisfação de ver que estavam felizes, sorridentes, porque afinal correu bem.
Não, perante estes factos, estas pessoas concretas, reais, porque as conheço, porque vivem uma situação decisiva, não tenho coragem de fazer greve. E muitos colegas pensam como eu.
Mas a imagem que passa não é essa - é a de Sindicatos e Ministério que se degladiam, impulsionados por meios de comunicação ávidos de discórdias. Ainda por cima, chego a uma dramática conclusão - se os meios de comunicação tivessem consciência de todo o mal que fazem aos jovens com o seu alarmismo e o serviço que prestam às especulações (para hoje nem sequer havia greve convocada!) talvez fossem mais cautelosos, em vez de lançarem a confusão com informações erradas e provocadoras.
E pronto, peço desculpa por tão longa "dissertação" (talvez não seja a hora nem o local mais adequado!) mas há momentos em que precisamos mesmo de dizer qualquer coisa... e depois, quando as palavras começam a fluir, é difícil "cortar o fio do pensamento"!
Porém, agora, para compensar, não vou falar aqui por mais umas longas semanas.
De facto, há mais de um mês que eu não vinha "à net", porque não tenho tido tempo (com todo o inimaginável trabalho de fim de aulas numa escola secundária de mais de mil alunos...) e a partir de segunda feira volto de novo a deixar de ter tempo: já fui convocada pelo Júri Nacional de Exames para a correcção de (quantas?) provas.
É que os exames de 12º ano (de outros alunos que não os nossos!) são corrigidos por tantos e tantos professores, num enorme trabalho de grande pressão e enorme responsabilidade, criteriosamente prolongado para além de tudo o mais que há a fazer.
Por isso não vou ter tempo para "navegar", nem sequer para eventualmente defender posições justas continuamente atacadas.
Ah, e já agora, gostaria de esclarecer que os exames de 12º ano (com todo o trabalho que acarretam de secretariado, vigilância e correcção!) se prolongam até ao dia 25 de Julho, inclusive, e não terminam a 23 de Junho, como ontem noticiou um "credível" canal de televisão do nosso país!!!!!!!
Desculpem a confidência... mas estou triste!»

Graça M.
17 Junho, 2005 16:44

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